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A poesia de uma língua

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De vez em quando em meio a minha rotina, se estou atento, me deparo com algo que me faz parar e sentir algo diferente. Às vezes um olhar, uma luz, uma cor, uma palavra, um pôr do sol… Se estamos atentos, é possível que vez ou outra encontremos algo poético em nosso dia a dia. Pois como nos alertou Guimarães Rosa “Tudo, aliás, é a ponta de um mistério”. A poesia é algo assim reconhecível porém difícil de explicar. Como se de repente uma porta se abrisse na gente e o que está dentro interage com o que está fora, tornando tudo diferente e belo.

E o que a poesia pode ter a ver com o aprendizado da língua francesa?

Para falar verdadeiramente uma língua é preciso antes se apaixonar e se deixar tocar por ela. Imagine aprender uma língua quando se é obrigado: uma tarefa árdua e quase impossível. O aprendizado tem que ser prazeroso e para isso nada melhor que se abrir para o que o idioma tem de curioso, belo, intrigante e misterioso. Aprender francês através da poesia de suas palavras, ou seja, através da beleza da sonoridade, da musicalidade, do fio invisível que liga a forma ao seu significado, tudo isso pode ser uma experiência divertida, prazerosa e apaixonante.     

George, um velho professor (e presidente!) francês disse uma vez: “ a poesia é a alma da língua, e suas palavras o coração que nela bate”. Poético…Por essas e muitas outras, a proposta deste primeiro de muitos artigos sobre a poesia, é apresentar um pouco mais essas pessoas extraordinárias que dedicaram suas vidas à beleza poética das palavras.

Agora pare de ler e preste atenção em sua respiração por alguns segundos… pronto? Imagine uma noite de luar clara e serena, jovens apaixonados que dançam e cantam uma bela canção. Eles estão tão felizes que já quase sentem em algum lugar a tristeza que virá quando tudo se acabar…

A paisagem ou a situação poderia ser um pouco diferente mas as sensações dos jovens apaixonados não são difíceis de reconhecer. Eis o tema de um poema escrito no ano de 1869 pelo poeta Paul Verlaine, um dos três poemas de sua Suite Bergamasque. Temas aliás que contrastam com a vida conturbada e violenta do poeta que integra o grupo dos “Poetas Malditos”. do qual faz parte os poetas Tristan Corbière, Stéphane Mallarmé e Arthur Rimbaud, com quem Verlaine viveu um romance turbulento.     

Este poema se chama Clair de Lune,  literalmente “O clarão da lua” comumente traduzido por Luar. Antes de ler a tradução eu sugiro e você se deixe levar pela musicalidade do poema original que também pode ser escutado na leitura de Louis Velle.

Versão falada: https://www.youtube.com/watch?v=6Tc1FuXj4bs

Clair de Lune

Votre âme est un paysage choisi

Que vont charmant masques et bergamasques

Jouant du luth et dansant et quasi

Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur

L’amour vainqueur et la vie opportune,

Ils n’ont pas l’air de croire à leur bonheur

Et leur chanson se mêle au clair de Lune,

Au calme clair de lune triste et beau,

Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres

Et sangloter d’extase les jets d’eau,

Les grands jets d’eau sveltes parmi les marbres.

E aqui vai uma tradução tal qual foi proposta por Álvaro Cardoso Gomes:

 

Luar

Vossa alma é uma paisagem escolhida

Que máscaras e bergamáscaras vão encantando

Tocando alaúde e dançando quase

Tristes sob seus disfarces fantasiosos

Cantando em modo menor

O amor vencedor e a vida oportuna

Não parecem acreditar em sua felicidade

E sua canção se mescla ao luar

Ao calmo luar triste e belo

Que faz sonhar os pássaros em suas árvores

E soluçar d’extase os chafarizes

Os grandes chafarizes esbeltos entre os mármores

 

O que mais me toca neste poema é a ambiguidade que traz a alegria da festa e ao mesmo tempo um sentimento de melancolia da luz do luar, uma luz triste mas bela. Ou as máscaras dançantes que escondem rostos quase tristes, e até os chafarizes que soluçam de êxtase.

Agora perceba como o ritmo dos versos e as rimas cruzadas evocam a música e a dança do poema. Proponho um exercício: leia em voz alta do segundo ao quinto verso do poema e observe como todas as construções com particípios presentes (as palavras terminadas com ant: charmant, jouant, chantant, dansant)  assim como a repetição do “E” (Et) no terceiro verso reproduzem a cadência e o ritmo da dança.

Aqui vale um pequeno comentário sobre as rimas. Quando fazemos a tradução de um poema nos deparamos com o dilema entre manter as imagens propostas pelo significado das palavras ou as sensações do seu ritmo e sonoridade. As rimas entre “árvore” (arbre) et “mármore” (marbre) na última estrofe dão certo em português, agora proponho um desafio: você teria uma boa solução para a rima entre “beau” e “jets d’eau” (belo e chafariz) ou “mineur” e “bonheur” (menor e felicidade)?

 

Aprender francês através das imagens poéticas pode ser também bastante desafiador! E se você apreciou esse poema deixo aqui uma última sugestão: releia-o, pense em suas imagens e coloque bem alto a música que o compositor francês Claude Debussy compôs no ano 1906 inspirado pelo poema. Ela se chama  “Clair de Lune” e é uma obra-prima da música impressionista ao buscar através da harmonia sonora retratar as sensações criadas pelo poema de Paul Verlaine. Você pode escutá-la aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=CvFH_6DNRCY 

 

Divirta-se e boa viagem!

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