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Artigo: 50 anos de Maio de 68

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Se você andasse pelas ruas do centro de Paris há exatos 50 anos veria uma cidade muito diferente. Não que a arquitetura da cidade tenha se transformado. Aliás, se você subisse pelo boulevard Saint Michel naquela época veria provavelmente os meus monumentos que ainda hoje estão por lá: a catedral Notre Dame à beira do Sena, a fonte Saint Michel no início do boulevard, as ruelas do Quartier Latin, o prédio da Universidade Sorbonne, e o fim do boulevard no Jardim de Luxemburgo.

Mas naquele mês de maio de 1968 a atmosfera era completamente diferente. Percorrendo o mesmo trajeto leríamos nos muros do boulevard frases que se tornariam o slogan de muitas gerações.

 

La beauté est dans la rue!”  

(A beleza está nas ruas!)

 

“Soyez réaliste demandez l’impossible”

(Seja realista peça o impossível!)

 

“Il est interdit d’interdire”

(É proibido proibir!)

 

Pela noite, bandeiras vermelhas por todos os lados eram iluminadas pelas chamas de ônibus e carros incendiados. Em cada ruela uma barricada feita com os paralelepipedos tirados do boulevard. Aqueles “pavés” (paralelepípedos) eram o símbolo daquela geração.   

Um mês inteiro de manifestações, greves, confrontos com a polícia e com todo e qualquer representante de poder. O mote era dar vazão ao desejo de revolta, seja contra o governo, contra a polícia, contra o professor, contra os pais. A juventude francesa saiu às ruas para se revoltar contra tudo o que representava o passado conservador, patriarcal, autoritário do país. O que ficou conhecido como “Maio de 1968” em Paris foi uma das maiores revoluções culturais do ocidente no século XX.

O cantor e compositor francês Renaud que tinha então 16 anos compôs na efervescência das ruas a sua primeira canção. Em sua letra podemos sentir um pouco da vibração e violência das noites de maio:

 

Je venais de manifester au Quartier

J’arrive chez moi, fatigué, épuisé,

Mon père me dit : bonsoir fiston, comment ça va ?

Je lui réponds : ta gueule, sale con, ça t’regarde pas !

 

Eu acabava de manifestar no Quartier Latin

Eu chego em casa, cansado, acabado,

Meu pai me diz: bom dia filhão, como você está?

Eu lhe respondo: cala boca velho, isso não te interessa!

 

Como explicar tamanha revolta? Os jovens franceses que atingiam a maioridade neste ano de 1968 foram a primeira geração nascida depois do fim da segunda guerra mundial. Uma geração que não conheceu as guerras em sua própria casa, uma geração que cresceu no impulso dos “30 anos gloriosos”, os anos que se seguiram à reconstrução da Europa. Um período de desenvolvimento econômico, pleno emprego e explosão do consumo.

Diferente de seus pais e avós que passaram por duas guerras mundiais, os “soixante-huitards” (expressão que se refere À esta geração, algo como “os de 68”)  cresceram dentro das universidades. Estes jovens sonhadores não se encaixavam mais em um país de valores conservadores e que tinha um militar por presidente, o general Charles De Gaulle. O espírito desta geração foi cantado, de uma maneira belíssima, pelo compositor greco-ítalo-francês Georges Moustaki, em uma canção de 1969:

Nous prendrons le temps de vivre

D’être libres, mon amour

Sans projets et sans habitudes

Nous pourrons rêver notre vie

Viens, je suis lá, je n’attends que toi

Tout est possible, tout est permis

Viens, écoute ces mots qui vibrent

Sur les murs du moi de mai

Ils nous disent la certitude

Que tout peut changer un jour

 

Nós tomamos nosso tempo de viver

De sermos livres, meu amor

Sem projetos, sem hábitos

Nós poderemos viver nossa vida

Vem, eu estou aqui, e só espero você

Tudo é possível, tudo é permitido

Venha, escute essas palavras que vibram

Nos muros do mês de maio

Elas nos dão a certeza

Que tudo pode mudar um dia

 

No início do mês a Universidade de Nanterre, criada na periferia parisiense para dar conta ao crescimento do número de estudantes nos últimos anos, foi fechada pelo reitor por causa de uma manifestação de jovens contrários à prisões de estudantes durante um ato contra a guerra do Vietnã dias antes. No dia seguinte um protesto organizado pelos mesmos estudantes no centro de Paris é reprimido  pela polícia. A brutalidade do confronto faz crescer o apoio aos universitários nos colégios. No dia 10 de maio é a noite das barricadas. Uma série de confrontos entre policiais e estudantes escondidos atrás de barricadas nas ruelas do Quartier Latin. Depois deste novo confronto muitos outros setores da sociedade se solidarizaram com os estudantes culminando em uma greve geral à partir do dia 14 de maio e mesmo à dissolução da Assembléia Nacional no fim do mês.

O contato de um velho e de um novo mundo gerou uma grande explosão. As coisas foram voltando aos poucos à normalidade mas as marcas deste relâmpago social permanecem até hoje. Os jovens no mês de maio desejaram uma sociedade onde houvesse liberdade plena: liberdade individual, liberdade sexual, respeito à minorias, uma sociedade menos belicista e menos consumista. Reivindicações que ainda ecoam 50 anos depois deste mês de maio de 1968.             

 

Bons estudos!

 

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